A presença de Érika Linhares no Mulheres Pod rendeu uma das conversas mais diretas sobre comportamento corporativo dos últimos tempos. Sem rodeios, a fundadora da B-Have e autora do best-seller “Gente Feliz Não Enche o Saco” contou como sua trajetória, que começou com vendas informais e evoluiu para o comando de equipes em grandes companhias, moldou sua visão sobre o que é liderar em um mercado cada vez mais exigente.
Durante a entrevista, Érika destacou que liderança não tem mais relação com cargos ou tempo de empresa. Segundo ela, a era do “manda quem pode” acabou. O que define um líder hoje é a postura — a forma como a pessoa se comporta quando ninguém está olhando, a coerência entre discurso e ação, e a responsabilidade emocional diante das situações do dia a dia. “A autoridade do crachá já não convence ninguém”, afirmou.
Ela também relembrou o período em que trabalhou no setor público, experiência que chamou de fundamental para entender as pessoas e suas necessidades reais. Quando migrou para o setor privado, percebeu rapidamente que o jogo era outro: metas apertadas, pressão por resultados e uma cultura corporativa que muitas vezes não sustenta o que prega. Foi nesse choque que ela desenvolveu sua visão prática sobre performance e comportamento.
Érika não economizou críticas às empresas que continuam repetindo erros básicos. Segundo ela, ainda é muito comum ver promoções feitas às pressas, funcionários preparados tecnicamente, mas emocionalmente imaturos, além de culturas que parecem bonitas no papel, mas não sobrevivem ao corredor da empresa. Para ela, o problema está em confundir liderança com simpatia. “Não é sobre agradar. É sobre ser justo”, disse.
Um dos momentos mais marcantes da entrevista foi quando contou sobre seu “despertar aos 45 anos”. Ela revelou que foi nessa idade que decidiu abandonar tudo que não fazia sentido e construir uma trajetória alinhada ao próprio propósito. Esse processo, segundo ela, deveria ser natural para qualquer líder, porque ninguém consegue orientar uma equipe se não tem clareza sobre a própria direção.
Ao falar sobre liderança feminina, Érika foi categórica: mulheres não precisam imitar líderes tradicionais para ocupar posições de poder. Ela defende que sensibilidade, autenticidade e vulnerabilidade estratégica não só têm espaço, como se tornaram diferenciais reais. “A gente não precisa ser dura para ser respeitada”, comentou.
Para Érika, a alta performance é muito mais simples do que as empresas tentam fazer parecer. Não se trata de excesso de tarefas, mas de clareza. Quando equipes sabem exatamente o que precisam entregar, quem faz o quê e qual é o objetivo final, a produtividade acontece de forma natural. “Coerência é a nova produtividade”, disse, reforçando que constância é mais poderosa que intensidade.
O futuro da liderança, na visão dela, será dominado por quem dominar comportamentos básicos, porém raros: responsabilidade emocional, foco no essencial, visão de longo prazo e presença de verdade. Quem não desenvolver isso, afirma Érika, pode até ter conhecimento técnico, mas dificilmente vai gerar impacto real em pessoas e resultados.
A conversa terminou com um recado direto a quem almeja liderar: é preciso coragem. Coragem para se posicionar, para ser honesto consigo mesmo, para sustentar valores e, principalmente, para assumir que liderança é uma escolha diária — e não um cargo.
O Mulheres Pod, apresentado por Amanda Abramo e Ana Mondragón e gravado nos estúdios da Cross Host em São Paulo, mais uma vez abriu espaço para uma reflexão profunda sobre trabalho, comportamento e propósito. A participação de Érika Linhares reforçou algo que muitos evitam admitir: num mundo corporativo cada vez mais complexo, a simplicidade — junto com a verdade — pode ser a maior força de um líder.