
Segundo ela, os primeiros sinais de que algo estava errado surgiram ainda durante o período de detenção. No entanto, foi apenas ao conquistar a liberdade que o diagnóstico veio de forma clara.
“Procurei um psiquiatra imediatamente depois que saí. Ali descobri que aquelas sensações que me paralisavam eram crises de pânico. Hoje sigo em tratamento e tomando a medicação necessária”, contou.
Mesmo com acompanhamento médico e terapêutico, as crises ainda interferem em sua vida.
“Já precisei cancelar compromissos importantes porque meu corpo simplesmente trava. O pânico chega sem aviso. A diferença é que agora consigo identificar quando a crise está se aproximando e busco agir rápido — seja com respiração, seja com o remédio”, explicou.
A saúde mental, segundo ela, tornou-se prioridade absoluta.
“Entendi que pedir ajuda é um gesto de força. Não é sinal de fraqueza, como muita gente pensa. É autocuidado.”
Um dos pontos mais sensíveis de sua recuperação é a luta para dormir.
“Sempre dormi bem. Hoje, quase todas as noites sou acordada por pesadelos. É como se aquela vivência voltasse de formas diferentes. As cicatrizes aparecem quando deito pra descansar.”
Além da síndrome do pânico, Natacha passou a lidar com agorafobia. Ambientes lotados e situações imprevisíveis se tornaram gatilhos.
“Às vezes, só imaginar estar em um lugar cheio já me deixa aflita. Mas estou tentando não me afastar do mundo. Sair de casa virou um pequeno grande desafio diário.”
As relações pessoais também foram afetadas.
“Depois de um trauma, a gente aprende a se proteger demais. Não é medo de pessoas, mas de sentir tudo de novo. Estou reaprendendo a confiar, a criar laços.”
Em meio a todas essas batalhas internas, os ensaios da Gaviões da Fiel se transformaram em um ponto de equilíbrio.
“No começo, eu mal conseguia me arrumar para ir. Chorava, sentia medo, achava que não ia conseguir. Mas quando piso na quadra, tudo muda. A energia daquele lugar é um abraço. Ali eu respiro.”
Para ela, o retorno à escola de samba vai além da preparação para o Carnaval.
“É o espaço onde encontro calma, onde minha mente desacelera. Desfilar se tornou um ato de cura.”